A reforma de nossa praça principal é um verdadeiro assassinato à história e à memória da cidade. O seu desenho que, com poucas alterações, já tinha quase 50 anos e apresentava claras influências do paisagismo moderno brasileiro não poderia ter sido alterado sem uma consulta maior à população e aos colegiados técnicos. Sequer soubemos o nome de quem fez o desenho da praça e o substituímos...
Se o piso apresentava problemas, poderia ter sido consertado, pois o atual, de blocos de concreto, já apresenta pontos de afundamento antes mesmo do término da obra. Existe uma memória e uma "cara" das praças limeirenses: quase todas as mais antigas são em mosaico.
E não me choca a troca do piso somente pelo valor histórico, mas também pelo valor artístico e pela qualidade dele. A qualidade artística e a nobreza do mosaico português são muito superiores aos bloquinhos de concreto. É como se uma senhora resolvesse trocar o piso de mármore de sua casa pela cerâmica mais comum do mercado.
Além disso, sua resistência é muito maior que a do concreto, o que significa que esse novo piso vai se desgastar muito mais rapidamente que o antigo. Ele está bonito agora porque ainda novo, mas compare com o piso igual que há na calçada da antiga Cesp, ali pertinho, já bastante sujo e gasto mesmo tendo somente uns cinco anos.
Se não bastassem esses problemas, a Toledo Barros não poderia ter sido alterada por estar em processo de tombamento histórico, o que é uma transgressão à lei sancionada pela mesma prefeitura que fez o projeto da reforma.
Dá para entender? Ou será que só o teatro e a gruta fazem parte da praça e o piso não? Nem mesmo as árvores foram consideradas, pois algumas foram cortadas e não há nem sinal de que pelo menos outras novas sejam plantadas para tentar substituí-las.
Mas, para além do corte das árvores, da troca do piso e do redesenho dos caminhos, o que mais me preocupa são as duas faixas laterais em cinza-escuro: ambas têm 12 vagas, muito bem delineadas... para os táxis, com os devidos rebaixos nas guias e as novas cabines dos taxistas! Então, a reforma do piso é para, entre outras atrocidades, colocar os táxis em cima da praça?! Para ganhar 20 e poucas vagas de estacionamento no Centro?
Espero muito que eu esteja errado, pois, se não, estaremos assistindo à mais uma apropriação do espaço público pelo bem privado: o automóvel que toma o lugar que deveria ser das pessoas.
Limeira vai comendo as esquinas da praça do Museu para os ônibus, cercando a praça do Fórum, depois os táxis param sobre a Toledo Barros... Os cidadãos têm que se contentar com cada vez menos espaço. Só pensa na utilidade do espaço e se esquece de que a cidade é feita de pessoas, de seu esforço, de seu saber-fazer.
Uma cidade é muito mais do que simplesmente uma máquina de morar. Ignorar a função do espaço público e da história é pisotear nossa memória, nosso trabalho e o de nossos antigos.
Fonte: Mateus Rosada - Arquiteto e Urbanista