Conselheiro Saraiva vira “ponto” de prostituição

Prostitutas, travestis e garotos de programa. A prostituição ocorre há muitos anos na Rua Conselheiro Saraiva, mas nos últimos meses a concentração de pessoas no trecho próximo da Rua Santa Cruz cresceu. A atuação da Polícia é difícil porque a prostituição não configura crime. As ações são voltadas para outras ocorrências que podem ser registradas em função de o local se tornar um “ponto”.

O problema para os moradores começa por volta das 20h30. A Gazeta recebeu reclamações, mas as pessoas pediram anonimato por questões de segurança. Mesmo se tratando de uma área central, o local é extremamente habitado, fato que se comprova inclusive pela presença de prédios.
Apesar de o problema ser antigo, os moradores afirmaram que o número de pessoas que fazem ponto está crescendo de forma alarmante, assim como a mudança rápida do perfil de quem faz “ponto”. A reportagem passou pelo local à noite e confirmou a reclamação. Uma das “profissões mais antigas”, a prostituição não reúne mais somente mulheres. Aliás, nesta região, elas são minoria. “Os travestis ‘dominam’ o local e os garotos de programa, que atendem homens e mulheres, são maioria”, disse um morador.
Mesmo já tendo feito abaixo-assinados no passado, os moradores continuam enfrentando constrangimentos diariamente, de segunda a segunda. “Nos sentimos incomodados quando precisamos retornar para casa e vemos a rua se transformando em ponto e o que é pior, muitas vezes o programa sexual ocorre até dentro de carros ou nos portões de estabelecimentos comerciais”. Mas o problema vai além dos transtornos. O barulho excessivo, durante a madrugada, também é outro motivo de queixa.
Os moradores entraram em contato com a reportagem para desabafar sobre um problema que parece estar fora do alcance das autoridades. “Não sabemos o que fazer ou para quem reclamar. O problema está se expandindo de forma rápida e fora de controle. Sabemos que são os clientes que alimentam esta prática, mas não podemos sofrer, calados, as conseqüência de uma situação cada vez mais absurda”, declarou outro morador. Segundo ele, um novo abaixo-assinado está previsto, mas eles não sabem para que órgão deverão entregar o documento.

POLICIAMENTO OSTENSIVO

O tenente Wagner Geromim Valente, chefe de Comunicação Social da Polícia Militar (PM), afirmou que somente o policiamento ostensivo pode inibir a ação destas pessoas. No entanto, este trabalho é difícil porque a PM precisa atender outros casos, além de ter pela frente outra agravante que impede trabalhos com soluções mais significativas. “A prostituição em si não é um crime. A prática configura ação criminosa quando existe, por exemplo, a exploração de lenocídio, ou seja, uma pessoa obtendo lucro através da exploração de prostitutas”, explicou.
Ele informou que a PM realiza constantemente rondas no local, atendendo inclusive ao pedido dos próprios moradores, mas não há como manter uma viatura de forma permanente no local. O trabalho da Polícia contribui para a prevenção de outros crimes como furtos de carros, em função da grande concentração de pessoas e tráfico de drogas.

ACEITAÇÃO PASSIVA


Geromim recorreu ao contexto histórico para compreender por que a prostituição começou a ser aceita de forma passiva pela sociedade. “Na época dos bárbaros, por exemplo, a prostituição se expandiu, como alternativa para evitar o estupro das mulheres”. Para o tenente, a prostituição está atrelada muito além dos fatores sociais. “Enquanto muitas pessoas ingressam no mundo da criminalidade em função da carência social, outras migram para a prostituição. Mas isso não ‘obriga’ ninguém a ingressar neste universo. Esta prática está muito mais ligada aos valores, às condutas de cada cidadão”.
A Gazeta abordou o problema da prostituição no mês passado, mostrando outro cenário preocupante no centro, formado por um número cada vez maior de prostitutas nas escadas da Catedral Nossa das Dores, na Praça Dr. Luciano Esteves. As prostitutas alegaram que estão trocando a noite pelo dia, em função da segurança maior e da perda de clientes, que estariam preferindo os travestis durante as madrugadas.
Na época, Vanderléia Aparecida Serrano Diogo, assistente social superintendente do Centro de Promoção Social Municipal (Ceprosom), afirmou que o projeto “Vitória”, voltado para a capacitação das prostitutas, seria ampliado. (ESS)


Jornalista: Gazeta de Limeira